E tu, que fazes?

Atualizado: Abr 13

Atividade Física, Exercício ou Desporto?


É natural a confusão em torno destes termos, não só porque estão interligados através de um conceito que implica movimento humano, mas também porque ao longo da história, têm sido sujeitos a diferentes interpretações, que ainda hoje contribuem para esta confusão generalizada.


Comecemos então pelas definições…

Atividade Física



Podemos definir Atividade Física como “qualquer movimento produzido pela musculatura esquelética que tem como resultado um gasto energético acima daquele que o indivíduo teria em repouso” (Caspersen et all, 1985).



De acordo com esta definição, qualquer atividade que envolva movimento pode ser categorizada como atividade física, seja ela um passeio, uma atividade de lazer ou mesmo fazer as lides da casa.


Exercício Físico



Já o exercício físico refere-se a “uma prática consciente de atividade física planeada, estruturada e repetitiva quem tem por objetivo a melhoria e/ou a manutenção de um ou mais componentes da aptidão física”. É portanto, diferente de atividade física, podendo ser considerado uma sub-categoria da mesma (Caspersen et all, 1985);



As palavras chave são “planeada”, “estruturada” e “repetitiva”, já que são aspetos essenciais quando pretendemos desenvolver ou manter uma das componentes da aptidão física. Por exemplo, se pretendemos trabalhar o aumento da força, naturalmente necessitamos de um plano estruturado de exercícios de força, que deve ser executado de forma repetida, com o objectivo de desenvolver a força. O mesmo se aplica a outras componentes da aptidão física, seja ela a coordenação, agilidade, velocidade, equilíbrio, resistência, flexibilidade/mobilidade, estabilidade, etc.


Desporto



Então e o desporto? O desporto pode ser definido como “um sistema ordenado de práticas corporais de relativa complexidade que envolve atividades de competição institucionalmente regulamentada, que se fundamenta na superação de competidores ou de marcas e/ou resultados anteriormente estabelecidos (…)”  (Gen. De Catalunya, 1991).



Ora vamos lá novamente às palavras chave….  “complexidade”, “competição regulamentada”, “superação de algo anteriormente estabelecido”. O desporto envolve muito mais para além da prática estruturada de exercício. Para além do desenvolvimento das diferentes capacidades da aptidão física por parte dos atletas, engloba todo um sistema de regras e organizações necessárias à regulamentação e controle das atividades em questão.


Achas que já consegues identificar um pouco melhor os diferentes tipos de atividade que praticas?



Para além das definições tradicionais



Quando temos definições claras, torna-se mais fácil categorizar os diferentes tipos de atividades. No entanto, para lá das definições não podemos ignorar outros factores que vieram tornar esta categorização menos linear.


O fatores tempo e história parecem ter impacto nesta interpretação. A verdade é que, um mesmo termo ao longo da história tem sido sujeito a diferentes interpretações. Exemplo disso é o movimento Sports for All das décadas de 70 e 80, que tinha por objetivo a melhoria da saúde,  através da promoção de um estilo de vida mais ativo, apelando à prática de atividades mais ou menos organizadas, desde os famosos circuitos de manutenção, à natação como cura para todos os males, passando pela febre da aeróbica.



O termo desporto encontrava-se associado a uma tentativa global de promover o movimento como elemento importante que contribui para a saúde, aparentemente dissociado da vertente competitiva e regulamentada que se lhe atribui actualmente na sua definição. “Eu pratico desporto” significava a participação em qualquer uma atividade de caráter físico, de alguma forma forma associada às tradicionais modalidades desportivas como o ténis ou a corrida.


Voltando ao conceito de Desporto, nessa época, qualquer atividade que envolvesse algo parecido com as modalidades desportivas, era percepcionado pelas pessoas em geral como desporto.


Ao longo do tempo temos assistido a um aumento na diversidade de atividades disponíveis. Assistimos também ao crescimento da consciência acerca da importância de nos mexermos, bem como do impacto da atividade física, exercício ou desporto na saúde de quem os pratica. No passado, era possível encontrar uma variedade de modalidades nos grandes clubes desportivos, mas eram também muitos os pequenos espaços dedicados a uma modalidade específica, fosse ela a musculação, a aeróbica, o pilates ou o karaté. Filmes como o Karaté Kid, o Flash Dance ou o Rocky contribuiam pontualmente para o aumento de adesões nestes espaços e também para o despertar do interesse em modalidades específicas.


Quem não se lembra destas caras?



O Fitness



Façamos um pequeno desvio ao tema que iniciou este post, para uma breve (muito breve!) menção ao que conhecemos hoje como fitness. O fitness acaba não só por ser uma ampliação da oferta e das atividades existentes face a uma maior procura pela diversidade, mas também uma resposta à procura pela vertente social que se encontra cada vez mais associada a este tipo de atividades. O termo fitness significa “estar em forma” ou em “boa condição física” e as atividades e organizações associadas a este conceito são muito variadas. Se relacionarmos fitness com os três conceitos iniciais, poderemos dizer que engloba atividade física e exercício no sentido em que muitas das actividades se encontram direcionadas para a melhoria de determinadas componentes da aptidão física. No entanto encontra-se mais distante do conceito de desporto. Poderíamos começar aqui toda uma outra discussão acerca das vertentes competitivas de crossfit ou aeróbica, mas estaríamos naturalmente a entrar numa zona em que os conceitos se sobrepõem.



Actividade física nos dias de hoje



Voltando ao termo mais básico “atividade física“, vamos agora tirá-lo do ano de 1985, altura em que foi proposta a definição mencionada no início deste artigo, e trazê-lo para os dias de hoje. Recordo que a proposta para definição de atividade física era “qualquer movimento produzido pela musculatura esquelética que tem como resultado um gasto energético acima daquele que o indivíduo teria em repouso”.


Nos dias de hoje, o termo atividade física é globalmente aceite e usado para designar todas as formas de movimento humano que possam trazer benefícios para a saúde, tendo sido adotado por todos os países e instituições governamentais internacionais.


É importante fazer referência a uma analogia feita pelo professor Pedro Teixeira, entre a atividade física e a alimentação, num artigo bastante interessante que aborda também estes três conceitos. No seu artigo, o prof. Pedro Teixeira afirma que necessitamos de atividade física diária, tal como necessitamos de alimentação. Ambas podem ter melhor ou pior qualidade, mas ambas são essenciais à saúde. Compara também o desporto à restauração/culinária, com lugares próprios para serem praticados, regras próprias de funcionamento e controle, e curiosamente o facto de ambos nem sempre serem benéficos à saúde (afinal de contas, um pudim de abade de priscos pode ser delicioso, mas não será talvez o mais indicado para os níveis de glicémia de um indivíduo com diabetes), da mesma forma que o aspeto competitivo do desporto se encontra associado a um aumento do número de lesões nos atletas.



E confesso, a minha preferida! Ao comparar a atividade física à alimentação de uma forma geral, é feita uma comparação entre o exercício físico e um plano alimentar orientado específicamente para um ou mais aspetos da saúde do praticante, fazendo referência à importância da prescrição e supervisionamento por parte de profissionais diferenciados e qualificados.



Tal como na alimentação, na atividade física no seu conceito mais abrangente não há certos nem errados. Dificilmente poderemos considerar como um risco grave para a saúde uma qualquer receita gastronómica, por muito carregada de nutrientes pouco saudáveis que esteja. Isto, se o indivíduo for saudável e não apresentar patologias específicas. Já uma pessoa que tenha tendência para ter hipertensão arterial, hiperlipidemia, hiperglicemia e outras patologias associadas ao foro alimentar/metabólico, é sabido que necessita ter cuidados nutricionais específicos. E por essa razão, estes indivíduos frequentemente recorrem a profissionais especializados para que lhes seja prescrito um plano alimentar orientado.


Da mesma forma, são cada vez mais as evidências científicas que mostram benefícios na prescrição de exercício em diferentes tipos de patologias, do foro neurológico, psiquiátrico, metabólico, cardiovascular, pulmonar, músculo-esquelético e oncológico.


Assim, na atividade física é importantíssimo que indivíduos com tendência a desenvolver patologias específicas ou indivíduos com patologias já presentes, usufruam da melhor forma possível dos benefícios que a atividade física tem para lhes oferecer, através de planos de exercício individualmente orientados para a sua situação particular.

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