Será mesmo só gula?


A alimentação é algo que faz parte obrigatória do nosso dia-a-dia. Para além do seu aspeto nutricional, apresenta também uma vertente fisiológica causadora de satisfação que, se observarmos da perspetiva de evolução do Ser Humano, é essencial à manutenção da vida. O Ser Humano foge da dor e procura a satisfação (por vários processos que seriam demasiado extensos para expôr aqui). Frequentemente usa a gratificação instantânea da comida como solução imediata, ainda que temporária, para dores e desconfortos emocionais, dos quais na maioria das vezes não tem sequer consciência.


Vamos olhar de forma muito breve para a o que se passou no último século para entendermos melhor como algumas mudanças sócio-económicas vieram contribuir para moldar comportamentos alimentares que hoje são a fonte de dor emocional para tantas pessoas.


A primeira metade do século XX foi pautada por grandes depressões económicas em muitos países. Em Portugal, os nossos avós passaram grandes dificuldades, não tendo muitas vezes alimento suficiente para alimentar devidamente toda a família. Quem não ouviu contar a história da sardinha para 3 ou das sopas de cavalo cansado? Depois de Salazar, o país apresentou momentos de crescimento sócio-económico, numa tentativa de melhorar as condições de vida dos cidadãos.


Durante este crescimento, assistimos ao aumento da produção, da distribuição e naturalmente ao aumento do consumo. Surgiram cada vez mais produtos que por sua vez se tornavam cada vez mais disponíveis. Lembro-me de, em criança da década de 70, o leite ser racionado. Os cereais disponíveis no supermercado aqui da rua eram os Corn Flakes, o Nestum e pouco mais. Não havia mangas, nem papaias, nem kiwis, nem abacaxi. Os chocolates eram da Regina e os Smarties eram uma novidade. Os supermercados eram pequenos, e junto às caixas registadoras não havia a miríade de produtos apetecíveis que encontramos hoje.


Os nossos familiares, na melhor das intenções, compensavam-nos com guloseimas que se tornavam cada vez mais disponíveis. A tia que nos vinha visitar e trazia sempre um chocolatinho, o gelado depois da refeição e só se eu comesse tudo, o “se te portares bem, compro-te um chupa-chupa”. Inadvertidamente, moldaram-se comportamentos de busca da satisfação instantânea através do recurso a produtos de valor nutricional baixo.


Em paralelo, na sociedade, o papel da mulher teve grandes mudanças. Saímos recentemente de uma ideologia Salazarista onde a tríade “Deus, Pátria e Família” ditava que o papel do homem era o de trabalhar e providenciar para a família enquanto a mulher ficava a tratar da casa e dos filhos. Tudo isto mudou. Passámos para uma sociedade onde a mulher faz questão de contribuir económicamente para o agregado familiar, tendo passado a ter um papel muito mais ativo quer na produção, quer no consumo.


Todas estas mudanças trouxeram naturalmente um acompanhamento menos próximo às crianças pelo tempo que ambos os pais passavam a trabalhar. Em muitas situações, trouxeram também alguns sentimentos de auto-culpabilização aos pais pela menor capacidade de estarem perto dos filhos. E por consequência, trouxeram também muitas compensações na forma de guloseimas.


Numa outra vertente, é sabido que as refeições são momentos sociais importantes, frequentemente associadas à celebração de algo. Seja um jantar de aniversário, o celebrar de uma promoção profissional, um momento a dois com alguém que nos é especial, ou mesmo um almoço de negócios, estes são momentos em que juntamos a necessidade de nos alimentarmos a um outro propósito, partilhando de alguma forma uma refeição.


Gostava aqui de tirar a carga negativa que possa eventualmente estar a associar quer às guloseimas, quer à comida de baixo valor nutricional. Tanto umas como outras têm o seu lugar nas nossas vidas. Estou exclusivamente a inseri-las num contexto social que aparenta ter contribuido para as tantas situações de comer emocional que vejo hoje em dia.


Olhando para tudo isto, não é de todo de admirar que tantos adultos de hoje dêem por si a ter comportamentos que não conseguem explicar. Quantas vezes já lhe aconteceu...:


  • Estar a trabalhar e num momento de stress apetecer-lhe ir buscar algo para trincar, mesmo que tenha almoçado há pouco tempo?

  • Chegar a casa cansada, pousar as coisas e a primeira coisa que faz é ir ao frigorífico?

  • Estar aborrecida e mesmo sabendo que não há razão para ter fome fisiológica, sentir uma vontade incontrolável de comer algo?

  • Terminar a refeição e continuar a comer até se sentir mal?


Se juntarmos a necessidade real de comer, à satisfação que a comida traz, à disponibilidade da comida de baixo valor nutricional no dias de hoje, à procura de satisfação para compensar situações emocionais por resolver, aos hábitos que nos foram incutidos desde criança... deixo-vos a pergunta:


Será que é mesmo só gula? Vale a pena pensar nisso.


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