Entorse do Tornozelo: Sinais e Sintomas

Atualizado: Abr 13


O tornozelo é talvez o complexo articular que mais carga suporta e também o mais sujeito a impactos repetidos ao longo da vida. A estabilidade do tornozelo é importante à sua função de apoio do peso corporal uma vez que suporta 1,5 vezes o peso corporal a cada passo ao caminhar e cerca de 8 vezes o peso corporal a cada passo, durante uma corrida ou ao saltar. Talvez por isso seja frequentemente alvo de lesões causadas quer por trauma direto (pancada), mas sobretudo por trauma indireto, que acontece quando é sujeito a um movimento forçado para além da sua amplitude de movimento.


São várias as estruturas que suportam o tornozelo, tais como ossos, ligamentos, músculos e tendões. Neste artigo em particular, iremos ver mais de perto os danos ligamentares resultantes destes movimentos forçados – as entorses do tornozelo. Numa futura oportunidade, abordaremos o trabalho de prevenção e reabilitação desta lesão.



 O que pode causar uma entorse do tornozelo?


  • Caminhar ou correr sobre superfícies irregulares ou desniveladas;

  • Queda, em que o tornozelo é forçado para lá da sua amplitude normal de movimento;

  • Impacto após salto, em que o pé é incapaz de estabilizar devidamente;

  • Uso de calçado inadequado que não providencia a estabilidade que o pé necessita para uma determinada actividade;

  • Movimento forçado da perna quando o pé se encontra preso (no solo, ou por ter sido pisado por outro indivíduo, por exemplo);

  • Existência de entorses prévias que tornam o tornozelo susceptível a nova lesão;

  • Dificuldade na estabilização, quer por falta de equilíbrio/estabilidade (défice na consciência corporal e perceção do movimento), quer por patologias que afetam a coordenação neuro-muscular (ex: doença de Parkinson);



Os Ligamentos



Os ligamentos são os elementos de estabilização que interligam os ossos, estabilizando as articulações na sua posição e protegendo-as de movimentos anormais. São estruturas elásticas que esticam até ao seu limite regressando depois à sua posição normal. Se um ligamento for forçado para lá da sua normal capacidade, ocorre uma entorse que, em casos moderados e graves apresenta uma rotura das fibras elásticas que o compõem.


Mecanismo de Entorse



Quando o pé se encontra numa posição anatomicamente neutra (Fig. a), os ligamentos de ambos os lados do tornozelo são sujeitos a forças e estiramentos dentro dos valores que estão preparados para suportar. Quando se verifica uma entorse, esta situação altera-se.




As entorses mais comuns acontecem numa destas duas situações:


  • Por inversão do pé – são as mais frequentes e acontecem quando o apoio é feito sobre o lado de fora do pé e há um rolamento do pé para dentro, forçando os ligamentos laterais (do lado de fora) do tornozelo (Fig. b)


  • Por eversão do pé – quando pé vira para fora, forçando os ligamentos mediais (do lado de dentro) do tornozelo (Fig. c)


Consoante a intensidade do estiramento a que o ligamento é sujeito nesse movimento, a lesão causada pode ser ínfima ou pelo contrário, pode verificar-se uma rotura completa de um ou mais ligamentos do complexo articular do tornozelo.



Sinais e Sintomas



Regra geral, o diagnóstico envolve um exame médico feito por um ortopedista no qual, para além da história clínica do paciente, é verificada a presença de:


  • Dor e edema na região afetada

  • Hematoma

  • Derrame intra-articular

  • Palpação das estruturas ligamentares

  • Amplitudes de movimento, rigidez articular


Por vezes os sinais e sintomas da lesão não refletem a gravidade da mesma e por essa mesma razão é recomendável a observação por parte de um médico qualificado, para que seja feito um diagnóstico correto e seja proposto tratamento adequado a cada caso. Atraso na procura de tratamento pode, por vezes, causar o agravamento da lesão.


Num exame médico, são frequentemente solicitados exames complementares de diagnóstico como:


  • Raio X – exclusão de lesões ósseas;

  • Raio X em carga – compreensão sobre como distendem os ligamentos em carga;

  • Ecografia – observação em tempo real dos tecidos ligamentares e do comportamento dos ligamentos quando se sujeita o tornozelo a carga;

  • Ressonância magnética – observação da real dimensão da lesão e possível existência de outras lesões circundantes (ex: nas superfícies das articulações e osso intra-articular, etc.)



Classificação da Lesão



A entorse do tornozelo é geralmente classificada em 3 graus, consoante a sua gravidade. A recuperação inicial de cada uma delas pode ir do simples repouso até à reconstrução cirúrgica das estruturas lesionadas. Vejamos como se classificam:


Grau I – Provável estiramento sem rotura ligamentar, ou rotura ao nível microscópico, onde se verifica:

  • Edema ligeiro sensível ao toque;

  • Dor ligeira a moderada;

  • Possível existência de ligeiro hematoma;

  • Impacto mínimo na capacidade de estar de pé ou caminhar;

Grau II – Rotura moderada e parcial das fibras de um ou mais ligamentos, onde se verifica:

  • Edema moderado;

  • Dor mais acentuada;

  • Diminuição da amplitude de movimento articular ou rigidez;

  • Possível instabilidade articular (o tornozelo “cede” ao estar de pé, ou caminhar);

  • Hematoma moderado;

  • Dificuldade no apoio em pé, ou ao caminhar;

Grau III – Rotura completa de um ou mais ligamentos, onde se verifica:

  • Edema generalizado significativo;

  • Dor moderada ou intensa;

  • Hematoma significativo;

  • Praticamente nenhuma amplitude de movimento articular, grande rigidez;

  • Impossibilidade de suportar peso sobre o pé ou caminhar;


O que fazer?



Uma parte significativa das entorse do tornozelo de grau I e II apresenta melhorias visíveis num período de 4 a 6 semanas, desde que se verifique repouso suficiente e o indivíduo não se exceda em atividades físicas intensas.


Não pondo de parte a importância de uma observação médica para assegurar a exclusão de situações mais complicadas, no caso das entorses de grau I e II há alguns procedimentos que podemos adotar com o objetivo de diminuir a inflamação local e iniciar o processo de recuperação dos tecidos. Referimo-nos aqui ao protocolo P.R.I.C.E.:


P – Proteção: Como qualquer zona lesionada, é importante a proteção do tornozelo contra pancadas, cargas, sobrecargas e movimentos forçados.


R – Repouso: O paciente deve evitar esforços no tornozelo durante o processo de recuperação. Este período de recuperação pode ir de 1 ou 2 dias numa entorse de grau I até várias semanas ou meses nas entorses de grau II ou III.


I – Gelo (Ice): A aplicação de gelo local contribui para a redução do edema, para a redução da dor e para o abrandamento do processo inflamatório local, através da redução da temperatura dos tecidos circundantes que leva à vasoconstrição dos vasos sanguíneos na zona afetada.


C – Compressão: O processo inflamatório local leva ao aumento do metabolismo tecidular local com tendência para uma vasodilatação que leva ao maior aporte de fluidos ao local da lesão. A compressão ajudará a controlar este edema, dificultando a possibilidade de haver uma acumulação localizada de fluidos.


E – Elevação: Particularmente nos membros inferiores ou que se encontram abaixo do nível do coração, a gravidade facilita o transporte de fluidos ao local da lesão. Ao elevar o tornozelo lesionado, há uma redução do fluxo sanguíneo ao local pela maior dificuldade no transporte sanguíneo a zonas elevadas. Este menor afluxo, também contribuirá para uma menor acumulação de fluidos no tornozelo.

As entorses de grau III, pelo facto de envolverem roturas completas de um ou mais ligamentos, são geralmente instáveis e requerem um período de recuperação mais longo. Consoante as características da lesão e se o indivíduo é mais ou menos ativo, o médico pode optar por tratamento conservador (sem o envolvimento de cirurgia), tratamento cirúrgico, ou pode mesmo iniciar uma abordagem conservadora e não havendo evolução, optar posteriormente por um tratamento cirúrgico.



O Tratamento Conservador, para além do protocolo P.R.I.C.E na fase inicial, geralmente envolve:


  • A Imobilização do tornozelo e perna, seja na forma de gesso ou através de uma ortótese comercial. Por vezes é usada uma “walker boot” que permite o apoio do pé no chão, com menor ou maior carga ao longo da recuperação, consoante indicação médica. Regra geral, o uso de canadianas é necessário para que haja a devida “descarga” do pé.

  • A Reabilitação passa frequentemente pela fisioterapia e o uso de diferentes técnicas. Dos ultrasons, crioterapia, termoterapia, eletroterapia, hidroterapia, cinesioterapia, etc., são vários os métodos utilizados neste processo.  Nestas situações do foro músculo-esquelético, é importante que a Reabilitação seja vista não só como um processo fisioterapêutico, mas como um contínuum terapêutico que tem por objectivo ultrapassar o processo inflamatório da lesão e a recuperação das estrututras afetadas,  mas também restaurar a função do tornozelo, e prepará-lo para cargas e sobrecargas futuras, de forma a prevenir futuras lesões. Num artigo futuro, abordaremos o aspeto da prevenção de futuras lesões e da restauração da função.


No caso das entorses de grau III que não reagem aos tratamentos de primeira linha ou a um processo conservador de reabilitação, recorre-se ao tratamento cirúrgico. Nestas situações, os tempos de fisioterapia e reforço muscular do tornozelo para reaquisição da estabilidade e força do mesmo, podem ser mais longos, podendo levar de semanas a meses. A reparação ou reconstrução cirúrgica tornará a estrutura ligamentar do tornozelo mais forte. Ainda assim, é importante notar que deve ser sempre feito um trabalho de reabilitação e reforço muscular no sentido de tornar as estruturas ósseas, ligamentares, tendinosas, musculares e articulares mais fortes e devolver-lhes a funcionalidade de que necessitam para poderem continuar a ser um apoio estável e sólido a cada passada. Este tema será abordado num artigo futuro, onde falaremos do trabalho que pode ser feito ao nível da prevenção e reabilitação das entorses do tornozelo.

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